Ridicularizar
a tentativa de golpe de 8 de janeiro e classificá-la como
"trapalhona" é um "equívoco", afirma o
professor Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de
Janeiro).
O
QUE ACONTECEU
"Todo
golpe fracassado é ridicularizado", disse o historiador, em
entrevista ao UOL. Ele está prestes a lançar "Utopia
autoritária brasileira: como os militares ameaçam a democracia
brasileira desde o nascimento da República até hoje", pela
editora Planeta.
Segundo
o professor, um eventual caráter "trapalhão" não torna a
tentativa de golpe "inofensiva".
“Quando
vistos retrospectivamente, mesmo os golpes vitoriosos se iniciaram
com ações ousadas que seriam consideradas inviáveis se tivessem
fracassado”. Carlos Fico, professor e historiador.
Segundo
Fico, um exemplo disso é a ação militar que instaurou a ditadura
em 1964 - e que completa 61 anos hoje. "Os golpistas seriam
tratados como loucos, fanáticos e trapalhões. A versão que
prevalece é a dos vitoriosos", diz.
Bolsonaro
réu é ação '‘pedagógica’' para militares golpistas.
Carlos
Fico afirma que a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de
tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete ex-integrantes do
governo réus por tentativa de golpe de Estado é "pedagógica"
para as Forças Armadas.
Dentre
os indiciados há três generais do Exército: Augusto Heleno,
ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional; Paulo Sérgio
Nogueira, ex-ministro da Defesa; e Braga Neto, ex-chefe da Casa
Civil.
“Pela
primeira vez na história política brasileira militares golpistas
foram submetidos a um inquérito conduzido corretamente pela Polícia
Federal”.
Carlos Fico, professor e historiador.
Fico
considera, no entanto, que a "pedagogia" não será
suficiente para impedir novas tentativas de golpe. Mais eficiente,
afirma, seria a mudança do artigo 142 da Constituição brasileira,
tirando da lei a "atribuição excessiva de garantia dos poderes
constitucionais pelos militares".
Ele
afirma que se trata de resquício do Império, quando os militares
atuavam com poder de arbitrar conflitos entre os poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário, e chegou à República, ganhando "poderes
excessivos" com a Constituição de 1891.
“Desde
então os militares atribuem a si o poder de intervir nas crises e
administrar conflitos. Mas não acho que a mudança na Constituição
tem chances de ocorrer, não com esse Congresso". Carlos
Fico, professor e historiador.
"Preparados,
patriotas e incorruptíveis"
No
livro —que será lançado em maio— Carlos Fico desenvolve a tese
de que os militares se consideram superiores aos civis e estaria a
cargo deles, na avaliação dos próprios, a missão de transformar o
Brasil em uma potência.
Essa
crença numa superioridade e "desprezo pelos civis",
analisa o professor, está na raiz das inúmeras tentativas de golpe
militar na história brasileira, e se explica pela formação em
escolas e rotina dentro e fora dos quartéis.
Por
viajar pelo Brasil – e servirem de apoio para o acesso a diversos
pontos do território nacional –, os militares pensam conhecer
melhor a realidade do país do que os civis, afirma o professor.
"Militares
não devem ocupar cargos".
A
"mítica" em torno da superioridade militar, avalia Carlos
Fico, foi abalada durante o governo de Jair Bolsonaro.
“Militares
foram colocados em posições decisivas e se conduziram muito mal. O
governo deu transparência ao fato de que militares não devem ocupar
os cargos que ocuparam”. Carlos Fico, professor e historiador.
Como
exemplo, ele cita a presença de Eduardo Pazuello (atual deputado
federal pelo PL/RJ) à frente do ministério da Saúde durante a
pandemia de covid-19. "Foi catastrófico", afirma.
Esse
"abalo", afirma o professor, também foi sentido durante o
governo militar.
“A
economia brasileira saiu da ditadura em frangalhos, com alta dívida
externa e inflação. A regra geral é que, quando ocupam cargos
indevidamente, militares demonstram a incapacidade deles para gerir a
coisa pública”. Carlos Fico, professor e historiado.
Adriana
Negreiros do UOL, em São Paulo.
Fonte:
https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2025/03/31