Inseto,
consumido há décadas em cidades como Tianguá e Ubajara, é mais
comum entre janeiro e março.
Comer
insetos pode
parecer incomum, mas não é um hábito distante. No Ceará, em
cidades como Tianguá e Ubajara, por exemplo, caçar
e comer formigas do gênero tanajura,
também chamadas de saúvas,
virou tradição entre gerações.
“Lembro
de começar a procurar tanajura com meu avô, desde pequeno, eu tinha
uns 6, 7 anos de idade. Ia com ele na bicicleta e a gente ia passando
nos sítios”, conta o jovem tianguaense Douglas Santos, um entre os
muitos que saem para caçar o inseto nesta época de chuvas mais
frequentes no Estado.
Comum
na Serra da Ibiapaba, o hábito não é encontrado apenas em solo
cearense. Ele se mantém nas regiões interioranas de São Paulo,
Minas Gerais e Pernambuco. No estado vizinho, o pernambucano João
Gomes compartilhou a experiência de provar a formiga pela primeira
vez. Incentivados, ele e a esposa, Ary Mirelle, comeram uma farofa de
tanajuras.
“Por
aqui, a
gente come com farinha,
como tira-gosto”, explica Douglas, lembrando do preparo semelhante
ao provado pelo artista. Sem temperos, com cuscuz, salgada ou em
pratos elaborados, a formiga foi incorporada, com o passar do tempo,
aos hábitos culturais das regiões e resiste até hoje.
Não
à toa, é exatamente entre janeiro e março, período de chuvas no
Ceará, que a caça por elas se torna mais ativa. Nessa época do
ano, elas saem dos formigueiros após as precipitações em busca de
espaços mais secos, criando, assim, a oportunidade ideal.
“Toda
vez que chovia, todo mundo já se reunia e ia atrás dos formigueiros
para caçar tanajura. A gente pegava para assar mesmo em
casa. Geralmente,
pegamos elas nos formigueiros,
e fica muita gente procurando. E aí, quando elas vão saindo, vamos
pegando”, descreve o cearense.
O
inseto, então, vira complemento de diversos pratos típicos, como no
caso da farofa experimentada por João Gomes. Na serra, elas chegam a
ser vendidas para turistas e moradores.
“Em
casa, a
gente limpa ela, tira as asas, o ferrão e coloca para assar.
O modo é com água e sal. E aí você coloca ela na frigideira e vai
esperando aquela água secar com a tanajura e o sal. Meu vô
geralmente também bota
farinha e aí serve como tira-gosto,
e é muito comum aqui na minha cidade”, comenta Douglas.
ATENÇÃO
NA HORA DO PREPARO
Antes
de preparar qualquer prato com tanajura, como a farofa, é preciso
ficar atento a algumas orientações. Segundo Marina Araujo,
diretora do Mercado AlimentaCE, é
necessário separar a cabeça e as asas do inseto antes do
cozimento.
"A
parte usada nas receitas é apenas a parte mais conhecida como
'bumbum', que na verdade é o abdômen da tanajura. Depois desse
processo, a melhor forma de preparar é fritar em manteiga ou óleo
para ressaltar o sabor terroso e gorduroso da iguaria", explica.
Para
a receita da famosa farofa de tanajura, Marina afirma que são
utilizados os seguintes ingredientes: alho, cebola, farinha de
mandioca e sal. "Os temperos trazem um acompanhamento perfeito
para a crocância e sabor do insumo”.
"A
tanajura é um excelente tira-gosto. Quando mordida, a tanajura
revela um sabor completamente particular: é terroso e gorduroso,
além de ser rica em proteína e lipídio", destaca a diretora
da instituição.
COMER
TANAJURA É SAUDÁVEL?
Mesmo
com o consumo presente nas tradições alimentares de determinadas
regiões cearenses, há quem tenha dúvidas se a tanajura faz bem ou
não ao corpo.
Segundo
Yves Patric Quinet, professor do curso de Ciências Biológicas da
Universidade Estadual do Ceará (Uece) e especialista em
formigas, ingeri-la
não só é saudável, como também é recomendável para a
preservação do meio ambiente.
“A
tanajura é uma fonte de proteína altamente recomendada, que
até poderia
substituir a proteína de mamíferos,
como as vacas, que têm muitos danos como consequência”, afirma.
Cem
gramas do inseto têm cerca de 356 calorias, com 45% da composição
corporal de água e 20% de proteínas.
Segundo
o pesquisador, a prática de consumir insetos também é incentivada
pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e
Agricultura (FAO): "Quando comemos insetos, estamos salvando o
planeta do desmatamento, do gasto de água e da emissão de gases
poluentes. Não há perigo algum em consumir esses animais, além de
que esse é um hábito comum e muito antigo", diz.
O
professor ainda destaca que a estrutura corporal da formiga é um dos
grandes responsáveis pela popularidade da iguaria.
Durante
a época da revoada, quando as tanajuras deixam suas colônias em
busca de outros ambientes, o corpo delas se enche de reservas de
energia essenciais para a sobrevivência no novo habitat.
“Essas
tanajuras são cheias de proteínas de alto valor, além de gorduras
insaturadas e vitamina B12. Elas acumulam reservas durante a revoada.
Primeiro, os músculos do tórax ficam muito mais potentes para ela
poder voar. Depois vêm as gorduras, porque quando ela vai começar a
fundar uma colônia, ela vai sozinha, então precisa sobreviver até
surgirem as outras formigas”
Yves
Patric Quinet
Professor
de Ciências Biológicas na Uec
PRÁTICA
DE COMER TANAJURA VEM DOS INDÍGENAS
Engana-se
quem pensa que o hábito de comer tanajuras se popularizou nas
últimas décadas. Pesquisas indicam a prática recorrente no
Brasil ainda no século 17, entre tribos indígenas.
No
Ceará, o surgimento teria ocorrido na tribo Tabajara, que até hoje
habita a Serra da Ibiapaba, e está descrito no livro "Lendas,
contos e mitos da Ibiapaba", do escritor João Bosco Gaspar.
Por
Paulo Roberto Maciel* e Mylena Gadelhaproducaodiario@svm.com.br
Fonte:https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/