Navi
Pillay é integrante da Corte Internacional de Justiça; Em mensagem
para presidente dos EUA, Nobel diz que paz não é "vontade do
mais forte".
Num
recado direcionado às superpotências militares e principalmente ao
presidente Donald Trump, o Prêmio Nobel da Paz vai para a juíza
internacional Navanethem “Navi” Pillay por seus esforços na
promoção da paz e do direito internacional.
Horas
depois do anúncio, Trump estabeleceu novas sanções para tentar
asfixiar o Tribunal Penal Internacional. O gesto foi visto como uma
resposta à ofensiva de Oslo para proteger a corte com sede em Haia e
onde a vencedora do prêmio ocupava um cargo. Com as medidas,
empresas americanas não podem mais manter qualquer contato com a
corte, inclusive com sistemas de e-mail, pagamento de viagens,
cartões de crédito, seguro de saúde ou qualquer outro serviço.
A
decisão tem como objetivo reforçar a ideia de que a resolução de
conflitos entre governos deve ocorrer por meio do direito
internacional, e não no campo de batalha.
O
prêmio é ainda um recado à tentativa da Casa Branca de desmontar a
justiça internacional e princípios como soberania e integridade
territorial. Nos últimos meses, Trump vem realizando uma operação
para sancionar e fechar o Tribunal Penal Internacional, também com
sede em Haia, e passou a chantagear governos em todo o mundo com
ameaças de invasão, tomada de territórios e ingerência em
eleições.
Em
Haia, os juízes passaram a ter suas vidas transformadas em um caos
diante da ofensiva da Casa Branca. Muitos estão sem poder usar
cartões de crédito, viajar ou manter certas contas bancárias. Em
Haia, salários têm sido pagos em dinheiro vivo aos funcionários
das cortes e o medo de punições é constante.
“Ao
conceder o Prêmio Nobel da Paz deste ano, o Comitê Nobel Norueguês
deseja lembrar ao mundo que o Estado de Direito – tanto nacional
quanto internacional – sustenta o sistema que criamos para garantir
a paz e resolver conflitos de forma não violenta. A paz exige
justiça”, afirmou o Comitê do Nobel.
A
premiada – uma sul-africana – é hoje integrante da Corte
Internacional de Justiça, que foi estabelecida após a Segunda
Guerra Mundial e é o principal órgão judicial da ONU, encarregado
de resolver disputas legais entre países. Uma de suas grandes
dificuldades é o fato de suas decisões não serem vinculantes. Ou
seja, não existe um mecanismo internacional para obrigar o governo
condenado a cumprir a sentença. Mesmo assim, sua autoridade moral e
política é inquestionável.
Entre
os seus juízes, um deles é o brasileiro Leonardo Brant, que
substituiu Antônio Augusto Cançado Trindade, que morreu em maio de
2022.
Hoje,
a corte vai muito além da garantia da paz e temas como mudanças
climáticas, disputas territoriais e desastres humanitários também
fazem parte de suas pautas.
Recado
contra Trump
Se
em 2025 o Nobel da Paz tinha sido alvo de duras críticas por conta
de uma suposta submissão à pressão de Trump, o comitê do prêmio
decidiram dar uma resposta contundente.
A
decisão de 2026 foi interpretada como um recado contra a política
de Trump de estabelecer “a paz pela força” e de seu desmonte do
direito internacional.
“A
percepção fundamental foi a de que uma paz duradoura deve ser
construída sobre princípios jurídicos, e não sobre a vontade dos
fortes ou um equilíbrio de poder frágil”, insistiu o Comitê do
Nobel, nesta sexta-feira.
“A
história demonstrou que um mundo que opera sem o Estado de Direito é
injusto, insensato e desumano. Os juízes – aqueles que guardam a
tênue linha entre a ordem e o caos – são, portanto, muito
merecedores de nosso reconhecimento. Mas hoje, quando esses mesmos
juízes sofrem sanções e suas instituições são atacadas,
precisamos de pessoas com coragem, visão e determinação –
qualidades que Navi Pillay demonstra em sua atuação na
magistratura”, anunciam.
Os
organizadores admitem que a ordem internacional baseada em regras
nunca foi perfeita. “As maiores potências frequentemente se
esquivaram de suas responsabilidades. Na prática, casos levados aos
tribunais sob o direito internacional produziram resultados
diferentes, dependendo de quem é o autor da violação e de quem é
a vítima”, reconhecem.
“Ainda
assim, temos visto que cada vez mais conflitos são tratados por meio
da diplomacia, de tratados e de mecanismos jurídicos, em vez de
ameaças, violência e guerra”, disseram. “Tanto líderes quanto
populações chegaram à mesma conclusão: o direito internacional é
a base para um mundo mais pacífico”, constataram.
Para
o Nobel, “em um momento de desafios existenciais – incluindo mais
guerras e conflitos do que o mundo via há muito tempo –, o direito
internacional não é mais apenas um complemento à paz e à
segurança. Ele é uma necessidade absoluta”.
Os
organizadores ainda fizeram questão de rebater a onda promovida por
Trump de desmonte das cortes internacionais.
“O
sistema de direito internacional está sob enorme pressão, e suas
instituições estão sendo atacadas. Observamos uma mudança em
direção à política de poder em detrimento das estruturas
jurídicas e do respeito global pela lei e pela justiça. Sempre que
a força se sobrepõe ao direito, a estabilidade, a confiança e a
coexistência pacífica são minadas”, indicaram.
A
história demonstrou que um mundo que opera sem o Estado de Direito é
injusto, insensato e desumano. Os juízes – aqueles que guardam a
tênue linha entre a ordem e o caos – são, portanto, muito
merecedores de nosso reconhecimento. Mas hoje, quando esses mesmos
juízes sofrem sanções e suas instituições são atacadas,
precisamos de pessoas com coragem, visão e determinação –
qualidades que Navi Pillay demonstra em sua atuação na
magistratura.
Quem
é Navi Pillay
Para
os organizadores do prêmio, Pillay “liderou o caminho para uma
ordem jurídica global mais abrangente”. “A laureada deste ano
desempenhou um papel fundamental para garantir que crimes de guerra,
crimes contra a humanidade e genocídio fossem levados a julgamento”,
afirmou.
Segundo
eles, o compromisso de Navi Pillay com princípios jurídicos
universais e sua firme bússola moral são constantes em uma longa
carreira.
“Nascida
em uma família de origem tâmil indiana durante o apartheid em
Durban, na África do Sul, Pillay tornou-se advogada e pioneira no
campo jurídico, enfrentando profunda discriminação estrutural,
segregação e exclusão”, afirmou o comitê.
“Um
fio condutor une seu trabalho inicial na defesa de Nelson Mandela e
de outros que se opuseram ao apartheid à sua atuação como juíza
em alguns dos principais casos de tribunais internacionais de nossa
época”, explicaram.
Ela
atuou como juíza na Alta Corte da África do Sul, no Tribunal Penal
Internacional para Ruanda e no Tribunal Penal Internacional. Foi Alta
Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e, até
recentemente, presidiu a Comissão Internacional de Inquérito
Independente da ONU sobre o Território Palestino Ocupado. Hoje, Navi
Pillay é juíza na Corte Internacional de Justiça, no caso em que
Mianmar é acusado de genocídio.
“Em
casos históricos de tribunais internacionais, ela demonstrou que
medidas jurídicas podem ajudar a prevenir atos de guerra e
violência. Navi Pillay também contribuiu para fortalecer as
instituições do direito internacional. Sua independência,
competência e firmeza fizeram dela uma das juristas internacionais
mais respeitadas de nosso tempo”, apontam.
Na
avaliação de Oslo, Navi Pillay responsabilizou Estados e líderes
nacionais e trouxe esperança a vítimas de violência e conflitos.
“Em todos os cargos que ocupou, ela enfatizou a responsabilidade de
indivíduos e Estados em cumprir o Estado de Direito. Ela também
ajudou a definir as normas e os princípios jurídicos relevantes.
Quando o Tribunal Penal Internacional para Ruanda estabeleceu que o
estupro e a violência sexual poderiam constituir crime contra a
humanidade — assim como genocídio —, sua influência foi um
fator significativo”, disseram.
“No
mesmo caso, a Sra. Pillay desempenhou um papel fundamental em outro
avanço jurídico: pela primeira vez, um réu enfrentou acusações
de incitação ao genocídio com base exclusivamente na disseminação
de propaganda”, completou.
Para
o Nobel, portanto, “Navi Pillay é uma das grandes defensoras dos
princípios jurídicos internacionais de nossa época”. “Sua
trajetória notável nos recorda da necessidade de apoiar, fortalecer
e ampliar o Estado de Direito em âmbito global. O compromisso de
Navi Pillay com a justiça e a dignidade humana é uma fonte de
esperança e inspiração para todos aqueles que buscam construir um
mundo mais pacífico”, disseram.
Papel
da Corte e atuação do Brasil
Em
2022, o órgão da ONU ganhou destaque quando ordenou que a Rússia
interrompesse suas operações militares na Ucrânia e retirasse seus
soldados do território do país vizinho. Moscou se recusou a sequer
ser representado durante o processo em Haia e a cadeira de sua defesa
ficou vazia durante a sessão.
A
Corte ainda foi o palco de uma queixa por parte do governo da África
do Sul contra Israel. A denúncia é por genocídio em Gaza.
Em
2024, a corte ordenou a Israel que tome todas as medidas ao seu
alcance para prevenir atos de genocídio em Gaza, punir incitamentos
e permitir a entrada urgente de ajuda humanitária. Em maio daquele
ano, o tribunal ordenou especificamente a suspensão da ofensiva
militar em Rafah, ordens que Israel rejeitou.
Em
julho de 2024, a corte declarou que a presença continuada de Israel
no Território Palestiniano Ocupado é ilegal ao abrigo do direito
internacional e deve terminar o mais rapidamente possível, ordenando
também a cessação da expansão dos assentamentos de colonos.
Em
outubro de 2025, o tribunal também concluiu que as restrições
impostas por Israel à Agência das Nações Unidas de Socorro aos
Refugiados da Palestina (UNRWA) violam as obrigações internacionais
de Israel enquanto potência ocupante e Estado membro da ONU.
Israel
ignorou todas as decisões.
Em
2025, o governo brasileiro também saiu em defesa dos palestinos na
Corte Internacional de Justiça. Em setembro do ano passado, o
Itamaraty submeteu um documento em que acusa Israel de cometer
genocídio contra a população palestina em Gaza.
O
Brasil decidiu não apenas fazer parte do processo como apresentar
sua posição, na esperança de reforçar o pleito palestino. A
partir de uma resolução na Assembleia Geral da ONU, a Corte foi
acionada para dar sua opinião sobre o comportamento de Israel.
“A
situação no Território Palestino Ocupado não é apenas uma
tragédia humanitária e um desastre político, mas também acarreta
sérias violações das normas imperativas do direito internacional”,
defendeu o Brasil. “Os princípios em questão –
autodeterminação, proibição de anexação e proteção de civis
sob ocupação – estão no centro do direito internacional. O
cumprimento da Quarta Convenção de Genebra e das decisões deste
Tribunal não é opcional; é um imperativo legal”, insistiu.
Fonte:
iclnoticias.com.br