Por Julián Fuks Colunista de Eco
Em política, como em todo assunto que vale a pena, há sempre algo que permanece incompreendido. Tudo agora é quase idêntico ao que já vimos no cenário brasileiro, estamos diante da mesma eleição travada outras vezes, a mesma eleição que nos incendiou há oito e há quatro anos, que exigiu de nós a máxima verve e o máximo empenho. E, no entanto, há algo de diferente, uma mudez maior espalhada por toda parte, uma apatia que não se confunde com indiferença, a entrega a um desfecho que parece além do nosso alcance, que nos transcende. E assim a data fatal se aproxima e tudo segue com alguma discrição, imprevisível e incerto.Quando a realidade é tão conhecida e ainda assim provoca estranhamento, parece que a razão estremece, a linguagem costumeira já não explica o que os olhos veem. Penso isso a cada vez que volto a ler as profusas explicações sobre o bolsonarismo, esse movimento que tomou de assalto o país e lhe deu uma face irreconhecível, face em que se acentuam seus traços mais sinistros. Por alguns anos essas explicações foram reveladoras, elucidaram algo do horror do país ao passo que o associaram a horrores mais vastos, ao crescimento da extrema direita que tem se dado no mundo inteiro. Agora não sei, é possível que tais ideias continuem tão precisas quanto antes, mas ainda assim se mostram insuficientes.
Que o bolsonarismo é uma forma de fanatismo, a busca de uma certeza equívoca num mundo que se fez complexo, a recusa da razão em nome de uma mentira mais simples. Que é a expressão política do ressentimento, da frustração de uns homens que queriam um futuro mais próspero para si mesmos, e que tudo tumultuam quando não o obtêm. Que é a manifestação de um ódio também, ódio por tudo aquilo que o sujeito não reconhece, ódio por transformações sociais e culturais que o excedem e o amedrontam. Ou que é em alguma medida a sublimação disso, a conversão do ódio num tipo estranho de encantamento, de pertencimento, recuperação da fantasia no universo político, mesmo que para isso precise se valer da mentira como método.
Cada uma dessas hipóteses continua válida, sim, e seu conjunto é ainda bastante expressivo, mas sinto que não condiz por completo com o cenário que hoje vemos. Esse bolsonarismo que os teóricos descreveram era eufórico, intenso, raivoso, festivo. Levava multidões em furor às ruas e às redes, perseguia com afinco seus inimigos — e me lembro bem disso porque há exatos quatro anos estava eu sendo ameaçado de morte pelo que escrevia, eu como tantos outros jornalistas. Hoje é tudo mais sutil, mais ameno em aparência, hoje as ruas estão vazias e são mais suaves os embates nas redes. E ainda assim as pesquisas apontam uma horda impressionante de eleitores dispostos a votar naquele mesmo projeto destrutivo e caótico.
O bolsonarismo já não tem o mesmo poder de engajar e insuflar os seus apoiadores, e no entanto parece ter se consolidado como força eleitoral perene, resistindo até à condenação e aos vexames sucessivos de seus líderes. Ao que parece, seu eleitor comum agora não é um sujeito inflamado, e sim desiludido, sempre em posse de seu vago inconformismo pelos rumos da política, sem saber direcionar aquilo que sente. Já não vota convicto, mas vota impreterivelmente nesse projeto que não admira, vota apesar de si mesmo, apesar de seu próprio descontentamento.
Alguém poderá trazer aqui a explicação que faltou ali em cima, alegar que o bolsonarismo não é mais que a feição extrema que assumiu no Brasil o conservadorismo, essa sim uma força política arraigada em muitos recantos do país. Mas, numa definição das mais elementares, o conservadorismo deveria ser o simples desejo de manter as coisas como estão, de impedir que elas se transformem rapidamente. E, convenhamos, agora que bem a conhecemos na oposição e no poder, quem de fato veria qualquer ímpeto de conservação nessa família disruptiva, essa família que tem feito da política um caos absoluto, um tumulto sem fim?
Há uma contradição aí, alguma dissonância, e talvez por isso estejamos um pouco perdidos também os opositores desse projeto que já sabemos terrível. Por um momento pareceu que queríamos todos uma eleição silenciosa, que o processo passasse quase despercebido, para que as forças brutais não despertassem e tomassem as ruas como há alguns anos. Não tem adiantado: mesmo dormentes tais forças podem vir a assumir o poder no país, e hão de ser tão nocivas quanto foram uma vez, como têm sido desde sempre. Será preciso decifrar esse mistério tão logo quanto possível. "Observar cuidadosamente significa desmontar", já disse Herta Muller, e já sabemos nós que é preciso desmontar essa bomba com urgência.
Fonte: uol.com.br






