Nutrição,
proteção e vínculo estão entre os benefícios que o aleitamento
materno proporciona desde os primeiros momentos de vida. Essencial
para o desenvolvimento saudável dos bebês, o leite materno reúne
nutrientes e fatores de proteção importantes para o crescimento e a
saúde da criança, além de contribuir para a saúde da mulher.
Durante
o Agosto Dourado, o tema ganha ainda mais visibilidade em uma
mobilização dedicada ao incentivo à amamentação e à importância
da informação, do acolhimento e da rede de apoio às mães.
No
Ceará, esse cuidado também encontra respaldo em iniciativas
aprovadas pela Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece),
que, ao longo dos anos, estabeleceu medidas de incentivo ao
aleitamento e à doação de leite humano, além de assegurar
direitos às mulheres que amamentam.
Para
a enfermeira Odete Silva, especialista em Aleitamento Materno e Banco
de Leite Humano, falar sobre amamentação passa também por
compreender as diferentes experiências vividas pelas mulheres
durante a maternidade. Segundo ela, orientação e apoio são
fundamentais para que esse período seja vivenciado de forma mais
acolhedora.
“A
amamentação é, sem nenhuma dúvida, muito importante. Os
benefícios do leite materno são incontestáveis, mas eu também
falo todos os dias para as minhas pacientes que, para cuidar de um
bebê, a mãe também precisa estar bem e a amamentação não
precisa ser vivida como uma prova de resistência”, ressaltou.
Nesse
contexto, a rede de cuidado e apoio que envolve a amamentação pode
também ultrapassar os limites de uma família e alcançar outros
bebês. Uma das formas de ampliar esse cuidado é por meio da doação
de leite humano.
“Existe
algo muito bonito no processo de doação de leite. Uma mãe que,
muitas vezes, nem conhece aquele bebê decide compartilhar o próprio
leite para ajudá-lo. É uma rede de cuidado que se forma entre
mulheres e que chega até um bebê que está precisando”,
assinalou.
REDE
DE CUIDADO: O QUE SÃO BANCOS DE LEITE?
Os
bancos de leite humano têm papel fundamental. Além de receberem
doações de leite materno, os serviços promovem, protegem e apoiam
o aleitamento e oferecem orientação às mulheres. O leite doado
passa por etapas de seleção, controle de qualidade e pasteurização
antes de ser destinado principalmente a recém-nascidos prematuros,
de baixo peso ou internados, que, por alguma condição clínica, não
conseguem receber o leite da própria mãe.
No
Brasil, os serviços integram a Rede Brasileira de Bancos de Leite
Humano (rBLH), coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O
Ceará conta com bancos de leite humano em Fortaleza e no Interior,
oferecendo suporte à amamentação e realizando a coleta de leite.
O
incentivo à doação e ao aleitamento também está presente na
legislação estadual. Entre as normas aprovadas na Alece, a doação
de leite humano ganhou um instrumento específico de incentivo com a
Lei 14.006/07, responsável
por instituir uma campanha estadual dedicada à prática. Já a
Lei 18.496/23 instituiu
o Agosto Dourado no Ceará, fortalecendo as ações de
conscientização e incentivo ao aleitamento materno durante o mês
de agosto.
Na
prática, o incentivo à amamentação e ao fortalecimento das redes
de apoio acompanha diferentes experiências vividas por mães e bebês
desde os primeiros momentos após o nascimento.
“HORA
DOURADA” EM DIFERENTES REALIDADES
A
“hora dourada” corresponde aos primeiros 60 minutos de vida do
recém-nascido logo após o parto. Nesse período, é estimulado o
contato pele a pele imediato com a mãe, que ajuda a regular a
temperatura corporal, os batimentos cardíacos e a respiração do
recém-nascido. Esses primeiros minutos também favorecem a liberação
de ocitocina na mãe, reduzindo o estresse e o choro do bebê,
facilitando a primeira amamentação e estimulando a produção de
leite materno.
No
cenário de um parto sem complicações, o bebê vai logo ao encontro
da mãe, como foi no caso da farmacêutica Ticiana Meneses, mãe de
primeira viagem. Segundo Ticiana, logo nos primeiros momentos, o bebê
foi colocado em seus braços e pôde mamar pela primeira vez.
“Acredito
que o apoio e o incentivo das enfermeiras foram muito importantes
para que esse primeiro contato acontecesse de forma tranquila e
especial. Foi marcante para mim e, desde então, a amamentação se
tornou uma experiência muito importante na nossa rotina”,
declarou.
Por
meio da sua consultora de amamentação, a farmacêutica, agora mãe
de um bebê de quatro meses, tornou-se doadora de leite materno.
“Desde o início, tive uma produção de leite muito boa e, como
era superior ao necessário, fui orientada sobre a possibilidade de
doar meu leite e ajudar outro bebê. Motivada em poder fazer a
diferença, comecei a fazer a doação do leite materno”, disse.
Já
para a auxiliar de sala de aula Luiza Daiane, o cenário foi
diferente. Também mãe de primeira viagem, ela teve uma ruptura
prematura da bolsa, e os gêmeos nasceram com 27 semanas. Os bebês
precisaram ser encaminhados para a Unidade de Terapia Intensiva
(UTI), impossibilitando o contato prolongado com a mãe após o
nascimento.
Natural
de Itapipoca, Luiza Daiane contou que os bebês ainda estão sendo
acompanhados no hospital. “Estou aqui há quase dois meses, e é
uma mistura de sentimentos. Fico triste por estarmos longe de casa,
mas, ao mesmo tempo, feliz por saber que meus filhos estão sendo bem
cuidados e que vão sair daqui saudáveis”, explicou.
Preocupada
com a alimentação das crianças, a auxiliar de sala pesquisou sobre
as doações de leite materno pelo receio de não produzir a
quantidade suficiente. “Procurei o banco de leite e fui bem
orientada sobre a minha saúde, produção de leite e demais
cuidados. Devido à doação de outras mães, meus bebês não
ficaram sem leite e seguem se alimentando”, afirmou.
Ela
conta que já teve a oportunidade de amamentar os filhos, que
continuam recebendo leite do banco de doação do hospital como
complemento para o fortalecimento. Luiza acrescenta que também pôde
doar o próprio leite materno ao banco, contribuindo para que outras
mães e seus filhos tenham a mesma segurança e o cuidado que ela
vivenciou.
O
ATO DE DOAR
A
doação de leite materno é um ato voluntário e fundamental para a
alimentação de bebês prematuros ou internados em UTIs neonatais.
Para ser doadora, a mulher precisa estar saudável, amamentando e
produzir um volume maior que o necessário para o próprio filho. O
processo exige cuidados rigorosos de higiene na extração e também
no armazenamento.
Para
o armazenamento, é necessário utilizar frascos de vidro estéreis,
com tampa plástica e boa vedação. Também é preciso deixar um
espaço de aproximadamente dois dedos entre a boca do recipiente e o
leite, para evitar que o frasco trinque durante o congelamento, além
de identificá-lo com a data e o horário da coleta.
A
Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa) incentiva a doação de leite
humano, alimento fundamental para diminuir o tempo de internação e
fortalecer o desenvolvimento de bebês internados nas unidades de
saúde ou que possuem alergia ao leite de vaca. Os cuidados de coleta
e armazenamento podem ser conferidos no site
do órgão, assim
como endereço, contato e horário de funcionamento de todas as
unidades de saúde com banco de leite no Estado.
INCENTIVO
E PROTEÇÃO
Fortalecendo
as ações de incentivo ao aleitamento materno e de proteção às
lactantes, a Alece também tem iniciativas aprovadas voltadas à
promoção da amamentação e à garantia de direitos.
Entre
elas, a Lei 12.142/93 trata
da instalação e do funcionamento de Centros de Incentivo ao
Aleitamento Materno em maternidades e postos de saúde da rede
estadual. Outras normas passaram a incorporar o tema ao calendário
de mobilizações do Estado, como a Lei 13.591/05, que
instituiu a Semana Estadual do Aleitamento Materno, celebrada
anualmente de 1º a 7 de agosto, e a Lei 18.969/24, que
criou o Dia Estadual do Aleitamento Materno, celebrado em 23 de
março.
Além
das ações de incentivo, a legislação estadual também assegura o
exercício da amamentação. A Lei 16.835/19 garante
o direito ao aleitamento materno em estabelecimentos no Ceará,
independentemente da existência de espaços específicos destinados
a essa finalidade.
O
BANCO DE LEITE DO HUC
O Hospital
Universitário do Ceará (HUC) reforça
a necessidade de doações de leite humano, alimento essencial para o
desenvolvimento e a recuperação dos bebês acompanhados na
instituição. As pessoas interessadas em doar podem entrar em
contato com o Banco de Leite Humano pelo telefone (85) 99421-9941.
Por
meio do contato, a equipe orienta sobre os cuidados necessários para
a doação e também oferece informações sobre amamentação. O
serviço funciona 24 horas por dia e precisa de aproximadamente 573
litros de leite por mês para atender à demanda dos recém-nascidos.
Atualmente,
a média de doações é de 214 litros mensais, volume 62,7% abaixo
da necessidade. Além do leite humano, o HUC também recebe potes de
vidro utilizados para armazenar o alimento.
Edição:
Vandecy Dourado
Fonte:
https://www.al.ce.gov.br/