Mais
de 40% dos jovens relataram o consumo diário desses produtos
enquanto menos de um terço consome verduras.
Foi
divulgada recentemente a quinta edição da Pesquisa Nacional de
Saúde Escolar (Pense), que traz, entre outros dados, números sobre
o consumo
alimentar das crianças e adolescentes nas
instituições de ensino. As informações levantadas acendem um
alerta, já que apontam para altos índices de ingestão de
sobremesas industrializadas e ultraprocessados em geral.
Mais
de 40% dos jovens relataram o consumo diário desses produtos. Também
foi identificado alto nível de consumo de alimentos ricos em milho e
carboidratos. Em contraposição, apenas um terço dos estudantes
relataram comer verduras e legumes com frequência.
“A Pense
é muito interessante,
porque não fala apenas do que é ofertado dentro da escola, mas
também do acesso que os adolescentes têm ao sair dela. As escolas
públicas também têm acesso a ultraprocessados no entorno dos
ambientes escolares, às vezes até mais do que as escolas
particulares. Ao mesmo tempo, observa-se que tanto na escola pública
quanto na privada existe uma oferta bastante expressiva de
ultraprocessados”, explica, ao Conversa no Bem Viver, Marília
Albiero, gerente de inovação e estratégia da ACT Promoção da
Saúde.
Confira
a entrevista completa:
Brasil
de Fato: O
que os dados encontrados com a pesquisa mostram? Qual é o panorama?
Marília
Albiero: Eu
acho que é importante tentarmos lembrar a função da escola. Esses
inquéritos populacionais são muito importantes para pautar a
política pública e esse olhar para a escola. A escola é onde
passamos boa parte da nossa infância e adolescência. São muitas
horas do dia, longos anos, onde, mais do que absorver conteúdo, você
molda hábitos alimentares e forma cidadãos.
O
que começamos a observar? A grande motivação da pergunta é esta:
a escola está servindo mais para ser um local de proteção da
criança e do adolescente ou um lugar onde se potencializam todos os
fatores de risco? A Pense aborda vários pontos, não só a questão
da alimentação, mas observamos que a escola poderia ser um local de
transformações, principalmente falando de educação alimentar e
nutricional, tendo também o lugar de prática para isso.
O
importante da Pense é que ela traz dois tipos de cenários: a escola
pública e a escola privada. Pode ser que a maioria dos ouvintes não
saiba, mas o Brasil tem um Programa Nacional de Alimentação Escolar
(Pnae), que tem mais de 50 anos e é responsável pela alimentação
de mais de 40 milhões de estudantes.
Só
que a escola pública também acaba tendo a possibilidade de colocar
cantinas, lugares onde o estudante possa ter acesso a alimentos. Já
na escola privada, há mais acesso às cantinas. Por isso é
importante, na hora de falar da regulação e de olhar para esse
ambiente alimentar, entender esse perfil do público e do privado.
Ao
mesmo tempo que a escola pública poderia ter uma proteção maior
por causa desse programa muito bem estruturado, que tem
regulamentações que restringem o consumo de ultraprocessados,
começa-se a observar também que não basta estar só inserido na
escola. Existe todo um entorno escolar.
A
Pense é muito interessante, porque não fala apenas do que é
ofertado dentro da escola, mas também do acesso que os adolescentes
têm ao sair dela. Esse é um dado que chama muito a atenção: as
escolas públicas também têm acesso a ultraprocessados no entorno
dos ambientes escolares, às vezes até mais do que as escolas
particulares.
Ao
mesmo tempo, observa-se que tanto na escola pública quanto na
privada, quando há esse acesso à alimentação dentro da
instituição, existe uma oferta bastante expressiva de
ultraprocessados. E há outro dado importante que a Pense traz: ela
não olha apenas o que é ofertado ou o acesso, mas também pergunta
o que os adolescentes consumiram no dia anterior. Esses dados chamam
a atenção porque mostram uma modulação dos hábitos alimentares.
Realmente é marcante essa persistência dos ultraprocessados.
Você
vê talvez uma certa migração de alguns produtos. A questão das
sobremesas — leia-se sorvetes, chocolates e guloseimas — ganha
protagonismo. Vê-se ainda muito refrigerante. Estou falando desses
elementos porque vamos entender como isso se dá com a regulação. E
chama muito a atenção o baixo consumo: mais de 50% dos
adolescentes, no dia anterior, não fizeram a ingestão nem de
frutas, nem de legumes.
Para
isso, existem várias explicações. Uma é a disponibilidade física,
que regula o ambiente escolar, e a outra questão, tão importante
quanto, é o preço dos alimentos, que é outra rota em discussão,
por exemplo, na reforma tributária. Você percebe que são duas
variáveis — o acesso físico e o preço — que, combinadas à
promoção e publicidade muitas vezes presente no ambiente escolar,
formam esse combo que torna a alimentação não saudável mais
acessível e presente na vida dos adolescentes.
O
que são os ultraprocessados? Podemos colocá-los como um problema da
sociedade moderna, dos últimos anos?
Primeiro,
é uma vitória para a sociedade que essa nomenclatura
“ultraprocessado” venha ganhando peso no debate público. É um
termo que foi cunhado com a nova classificação em 2009, que
classificou os alimentos não só pelos nutrientes, mas pelo grau de
processamento. À medida que você vai processando o alimento, acaba
distorcendo a matriz alimentar. Daqui a pouco, você não tem o
alimento de origem, mas sim uma formulação química.
Isso
vai muito além de usar aditivos para conservar o alimento. É
justamente para mascarar aroma, sabor, textura e cor, para que se
torne um produto mais barato e acessível, pois utiliza ingredientes
como sal, açúcar e sódio em grande quantidade, além dessa
combinação de aditivos. Então, perde-se a característica do
alimento.
Às
vezes temos dificuldade de explicar tecnicamente, mas sabemos
reconhecer: são os biscoitos, bolachas, salgadinhos, refrigerantes,
guloseimas e os industrializados de maneira geral, como os
congelados. Por isso, ler o rótulo é importante para conhecer a
composição.
O
que é mais importante é que hoje temos uma literatura muito forte e
consolidada; não existe mais dúvida da correlação dos
desfechos negativos dos ultraprocessados com a saúde.
Vou
citar dois pontos importantes. Saiu há uns dois anos na British
Medical Journal um estudo associando o consumo de ultraprocessados a
32 tipos de doenças.
Então,
não é mais apenas a questão da obesidade, sobre a qual por muito
tempo se falou: “ah, basta aumentar a atividade física, o problema
é o sedentarismo”. Infelizmente, não estamos falando apenas da
obesidade, que além de doença é um fator de risco. Temos diabetes,
doenças cardiovasculares, transtornos mentais e déficits
cognitivos, que, na época escolar, são muito importantes.
Recentemente,
saiu uma série na The Lancet, uma das revistas científicas mais
importantes do mundo, sobre a questão dos ultraprocessados. Ela não
fala apenas dos desfechos negativos na saúde, mas diz que a maneira
de resolvê-los é com política pública. Traz também um elemento
do porquê não conseguimos avançar: existe todo um setor que será
regulado que, de certa forma, impede esses avanços, porque soluções
existem. O que existe também é um grande conjunto de interesses
nessas arenas, dos municípios ao Congresso Nacional, impedindo o
avanço dessa regulação.
Quais
vitórias já tivemos e, ao mesmo tempo, quais batalhas perdemos?
Muito
do histórico das políticas regulatórias é inspirado no controle
do tabaco. Essa é sempre a primeira resposta que damos quando dizem
que não precisa de regulação: o tabaco está aí. Só avançou
porque conscientização e sensibilização tinham um limite; entrou
o papel da política pública.
São
quatro grandes políticas regulatórias. A primeira é a da
rotulagem. Ela foi a primeira que conseguimos trazer à tona depois
de muito tempo. Temos a lupa reconhecendo três ingredientes
críticos: sal, açúcar e gordura. Nossos vizinhos na América
Latina conseguiram ir um pouco além. Países como a Argentina
indicam, por exemplo, se existem edulcorantes (adoçantes), porque
essa foi uma estratégia usada pelo setor: tiraram o açúcar, mas
colocaram outro elemento para substituir sem avisar o consumidor.
Além
disso, tudo que tem selo de advertência não deveria ter
publicidade. Cereais que têm desenhos e ícones infantis não
poderiam utilizá-los. Esse é um processo importante da sociedade
civil. Existem modelos de aprimoramento regulatório na Anvisa, então
temos que estar lá pressionando e produzindo evidências.
Mas
posso dizer que o ambiente é muito interessante. Primeiro, como
falei no início, temos o Programa Nacional de Alimentação
Escolar [Pnae], que é referência no mundo. Imagine um país de
dimensão continental que consegue fornecer um grande volume de
refeições e aprimorar isso ao longo do tempo. Tanto que a resolução
do Pnae, a cada ciclo, está restringindo cada vez mais os
ultraprocessados.
Estamos
vendo também, em estados e municípios, e no que tramita agora no
Congresso Nacional, avanços nas regulações dos ambientes
alimentares nas escolas. Recentemente, Rio de Janeiro, Niterói e
Ceará conseguiram regular não só a escola, mas o entorno. Estamos
com a tramitação de um projeto de lei, o 4501 de 2020, justamente
para tentar equalizar isso nacionalmente, assim como o tabaco fez.
Trazer uma lei nacional para regular tanto a escola pública quanto a
privada, controlando não só o que é ofertado, mas toda a
publicidade e melhorando a qualidade. Temos a grande chance de dar
uma celeridade maior ao país em termos de ambientes alimentares.
Fechando
com a questão de preços: estamos com a reforma tributária em
andamento. Uma parte do avanço foi conseguida porque, se não fosse
o trabalho da sociedade civil, todos os ultraprocessados entrariam em
uma área de desoneração, com alíquota quase zero. No final das
contas, quem pagaria seria o consumidor, pois outros produtos
custariam mais caro. A desoneração tem que ser dada com muita
sabedoria.
Estamos
em um momento complicado de definição da alíquota do imposto
seletivo, que acabou ficando apenas para os refrigerantes. O lobby
ainda é muito alto. Se não nos movimentarmos, eles manterão
benefícios fiscais. A Pense revela isso: o consumo de refrigerante
ainda é muito presente. Quando você pega um grupo tão importante,
que vai formar hábitos para o futuro e definir se será um adulto
saudável, vê um volume de refrigerante com muita presença nos
inquéritos. Então, mais do que nunca, a política de preço com
imposto seletivo é fundamental como inibidor. Preço,
disponibilidade e restrição de propaganda: esse combo, se bem
amarrado pelas políticas, permitiria a grande virada na alimentação
do país.
Por
Ana Carolina Vasconcelos e Lucas Salum – Brasil de Fato
Fonte:https://iclnoticias.com.br/ultraprocessados-tomando-lugar-prato-saudavel/