Engenheiro
ajudou a definir como o Estado combateria a seca.
Um
fluminense que auxiliou o Ceará a construir as primeiras estruturas
de combate à seca, além de protagonizar o início da história
ferroviária do Estado. É assim que pode ser resumida a relação do
engenheiro civil Bernardo Piquet Carneiro com o território cearense,
que o homenageia com um município homônimo na região do Sertão
Central.
Nascido
no estado do Rio de Janeiro, em 1860, ele iniciou a vida profissional
na construção do que viria a ser uma das mais importantes ferrovias
do Rio Grande do Sul daquela época: a Estrada de Ferro de Porto
Alegre e Uruguaiana, conforme detalha o professor José Bonifácio de
Sousa em artigo no Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico e
Antropológico).
Devido
à experiência, aos 37 anos, foi transferido ao Ceará, onde assumiu
a presidência da estatal Rede de Viação Cearense (RVC), na qual
passou a atuar
na administração das obras e, posteriormente, no funcionamento da
primeira via férrea do Estado:
a
Estrada de Ferro de Baturité.
Ligando
Fortaleza à região do Cariri, a linha representava a modernização
local na época do Brasil Império
(1822-1889),
como define a historiadora Ana Isabel Ribeiro, em sua tese de
doutorado na Universidade Federal do Ceará (UFC).
Inclusive,
a estrada está diretamente ligada ao surgimento do município de
Piquet Carneiro. Conhecida à época como "povoado de Jirau",
a localidade foi avaliada como estratégica pela RVC, que instalou
uma das estações do itinerário na vila em 1907, sete anos após o
engenheiro fluminense deixar de atuar na ferrovia.
A
parada estimulou o crescimento local, que, ainda com o topônimo
original, foi elevado ao status de distrito de Senador Pompeu, em
1933. A
mudança
de nome para Piquet Carneiro
aconteceu somente em 1938, dois anos após o profissional morrer, em
uma homenagem póstuma
feita
pelo então presidente brasileiro, Getúlio Vargas.
Engenheiro
definiu como Ceará combateria a falta d’água
Porém,
antes de virar nome de logradouro no Ceará, o engenheiro civil usou
os conhecimentos técnicos e o talento administrativo para auxiliar
na construção das primeiras estruturas de combate à seca no
Estado,
que também foram pioneiras no Brasil.
A
mando do governo imperial de Dom Pedro II, Piquet Carneiro deu
início, em 1900 — ano em que os cearenses enfrentavam mais uma
estiagem —, às obras do primeiro
reservatório artificial do País: o açude Cedro,
no município de Quixadá, no Sertão Central.
Ainda
conforme Sousa, além de atuar no projeto da barragem, o
profissional foi responsável por organizar o plano de irrigação da
estrutura e, respectivamente, projetar a rede de canais que
beneficiaria, na época, mais de mil hectares de terras voltadas à
agricultura próximas ao açude.
Ao
todo, a prática de Piquet Carneiro em obras de combate à seca se
estendeu por nove anos, período em que usou a experiência adquirida
no açude do Cedro para contribuir com outros reservatórios
artificiais no Ceará e no Rio Grande do Norte.
Então,
em 1909, encerrou o ciclo hídrico, retornando ao setor ferroviário
como Chefe do 1º Distrito de Fiscalização de Estradas de Ferro,
com jurisdição na região Nordeste. No período, voltou a atuar com
a Estrada de Ferro de Baturité, na época arrendada para a companhia
britânica South American Railway Construction Company Limited.
Ele
permaneceu no cargo até 1914, quando definitivamente deixou as
terras cearenses e retornou ao Rio de Janeiro.
Antes de se aposentar, em 1921, o engenheiro ainda trabalhou na
extinta Inspetoria Federal das Estradas, órgão federal que
fiscalizava as estradas de ferro e de rodagem da União.
Além
de nomear cidade, Piquet Carneiro também batiza rua no CE
Mais
do que topônimo do município do Sertão Central,
o engenheiro também é homenageado em outro endereço na mesma
região cearense.
Desta vez, em vez de batizar uma localidade, nomeia um logradouro em
Quixadá: a Rua Dr. Bernardo Piquet Carneiro, no bairro Curicaca.
O
tributo ganha mais uma camada quando se considera que Quixadá
seria o local preferido do engenheiro nos anos em que residiu no
Ceará.
Para ele, a cidade “deveria ser refúgio dos homens de coração
bem formado e dos que amassem a Deus pela contemplação da
natureza”, segundo parafraseia Sousa no artigo ao Instituto do
Ceará.
A
paixão seria justificada tanto pelas belezas
naturais do município quanto
pelas lembranças vividas nele, onde o profissional viu nascer os
primeiros filhos e cultivou amizades, inclusive com os trabalhadores
que atuaram na construção do açude de Cedro.
Um
sudestino com olhar voltado ao Nordeste
Ao
dedicar quase duas décadas dos 37 anos de carreira ao Nordeste, em
especial ao Ceará,
Piquet Carneiro sempre tratava os desafios da região como um
problema nacional,
como destaca Sousa ao citar um trecho escrito pelo próprio
engenheiro em 1911:
"Os
futuros governos tenham constantemente em vista que a prosperidade do
País e seu equilíbrio financeiro não dependem somente da
valorização do café, dos processos aperfeiçoados da cultura da
cana, da penetração das estradas de ferro, etc., mas também e
muito da solução do problema do Nordeste.”
Para
ele, a saída para os obstáculos característicos da região,
majoritariamente semiárida, residiam no aproveitamento do lençol
freático por meio de barragens submersas e no uso de açudes para
irrigação e para atividades particulares, além do investimento em
culturas resistentes ao clima, como algodão e carnaúba, e da
subordinação da lavoura e da pecuária às características do solo
local.
Piquet
Carneiro faleceu em 31 de outubro de 1936, no Rio de Janeiro, aos 76
anos.
Ao noticiar a morte do engenheiro, o extinto jornal cearense “A
Razao” destacou as contribuições ao progresso do Estado
protagonizadas pelo profissional, classificado como "exemplo de
honradez, atividade e dedicação ao público serviço".
O
talento da família Piquet não parou no engenheiro. O
bisneto do profissional é o automobilista Nelson Piquet,
tricampeão
mundial de Fórmula 1,
nos anos de 1981, 1983 e 1987. Ele é filho de Clotilde Piquet, neta
de Bernardo.
Fonte:
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