O Brasil sempre foi um país de contrastes. Mas nos últimos anos, o contraste que mais salta aos olhos não está nas paisagens, nem nas classes sociais, mas nas opiniões. Hoje, parece que tudo se partiu em dois: de um lado, os que veem o bem; do outro, os que só enxergam o mal. E o meio? O espaço onde a conversa acontece, onde o outro não é inimigo mas apenas diferente — esse meio está cada vez mais vazio. É a polarização política que, antes de dividir só as ruas, passou a dividir as mesas, as famílias e os corações.
Não é uma sensação apenas. É o que vemos todos os dias. Um simples post nas redes sociais sobre um aumento de preços ou uma medida de governo pode virar uma guerra de comentários. Alguém elogia uma política pública e logo aparece alguém acusando de ser "cúmplice de um regime". Outro critica um projeto e é chamado de "inimigo da pátria". O detalhe não importa mais: só importa de que lado você está.
Vimos isso claramente em momentos marcantes. Nas eleições de 2022, por exemplo, a divisão foi visível em todos os cantos. Famílias que sempre se reuniam no Natal deixaram de se encontrar. Amigos de infância pararam de se falar. Nas ruas, manifestações carregavam faixas e bandeiras, mas também carregavam ódio — e infelizmente, houve casos em que esse ódio virou violência, como ataques a cidadãos apenas por usarem uma camiseta de cor diferente. Em 8 de janeiro de 2023, assistimos, atônitos, à invasão e destruição dos Três Poderes em Brasília: um momento em que a divergência política se transformou em ataque à própria democracia.
A polarização também aparece em coisas que pareciam não ter nada a ver com política. Quando um artista faz uma apresentação, o público se divide entre aplausos calorosos e vaias altas, não pela qualidade do espetáculo, mas por quem o artista apoia. Até nas escolas, crianças e adolescentes repetem frases de ataque uns aos outros, aprendendo cedo que o outro é um adversário a ser derrotado, não um companheiro com quem se pode discordar.
O pior é que ninguém ganha com isso. Quando nos fechamos num lado só, deixamos de enxergar verdades que existem no outro. O governo passa a governar só para quem o elegeu, esquecendo que todos os cidadãos merecem atenção. A oposição passa a opor-se por sistema, sem reconhecer o que está certo. O debate desaparece; só sobra a disputa. E o país, que deveria avançar junto, fica parado, dividido como uma ponte partida ao meio.
Mas não é preciso ser assim. Polarização não é o mesmo que ter opiniões diferentes. É natural — e saudável — que pensemos de formas distintas sobre o rumo do nosso Brasil. O perigo está em achar que quem pensa diferente é menos brasileiro, menos honesto ou menos humano. A democracia não é feita por gente que concorda em tudo; é feita de gente que aprende a conviver apesar das diferenças.
Talvez o primeiro passo seja simples: voltar a olhar para o outro como pessoa, antes de qualquer rótulo. O vizinho que vota diferente também quer o bem dos seus filhos. O parente que discorda também sonha com um país melhor. O caminho não é apagar nossas crenças, mas entender que a verdade raramente está toda de um lado só. O Brasil é grande demais, diverso demais, para caber em apenas dois lados. Ele é feito por muitos, e é só falando com todos — e não contra todos — que conseguiremos reconstruir a ponte.
Fonte:https://www.facebook.com/emiliano.veras

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