Parlamentar
criticou ação a partir de denúncias recebidas de pessoas ligadas à
Assembleia de Deus Ministério Missão de Vida
Após
se reunir com moradores e lideranças comunitárias na Central Única
das Favelas (CUFA) na quinta-feira (30), o deputado federal Otoni de
Paula (MDB-RJ) afirmou
ao ICL Notícias que
há fortes indícios de execuções entre as 121 mortes provocadas
pela megaoperação policial nos Complexos do Alemão e da Penha, no
Rio de Janeiro.
Na
ocasião, o deputado Reimont Luiz Otoni Santa Barbara (PT-RJ) também
informou que ele e outros oito parlamentares assinaram um ofício ao
procurador-geral da República pedindo que seja avaliada a prisão
do governador
Cláudio Castro (PL)
em decorrência da operação. Relatos, imagens e vídeos estão
sendo reunidos para montar um dossiê e acionar mecanismos nacionais
e internacionais de responsabilização.
Otoni
de Paula explicou que seu discurso na tribuna da Câmara, feito na
quarta-feira (29),
teve como base denúncias recebidas de pessoas ligadas à sua igreja
Assembleia de Deus Ministério Missão de Vida. Na ocasião, ele
disse que estava falando enquanto pastor de direita e denunciou que
quatro dos jovens assassinados na operação “nunca portaram
fuzis”, mas estavam sendo contabilizados no pacote como se fossem
“bandidos”.
Ao
ICL Notícias, ele disse que as denúncias foram recebidas por duas
pessoas ligadas à sua comunidade evangélica:
“Pelo
menos quatro pessoas que estavam entre os mortos, sendo contadas como
traficantes, não eram traficantes, eram pessoas que nunca tiveram
envolvimento com o crime organizado. E eu resolvi revelar esta
denúncia na tribuna da Câmara Federal”, afirmou.
CONFIRA
A DECLARAÇÃO DO DEPUTADO NA ÍNTEGRA
Otoni
de Paula deu a declaração após visitar o território com a
Comissão de Direitos Humanos da Câmara, da qual é vice-presidente,
e ouvir relatos de moradores e lideranças comunitárias. A reunião
ocorreu na Central Única das Favelas (Cufa), e contou
com a presença das
ministras Anielle Franco (Igualdade Racial) e Macaé Evaristo
(Direitos Humanos), que também se emocionaram com os relatos dos
familiares.
“Nós
testemunhamos [na reunião] o que os moradores começaram a nos
relatar: pessoas decapitadas… pelo menos uma delas sem os dedos das
mãos… pessoa amarrada com tiro na nuca, mostrando que houve
execução”, contou.
Otoni
ressaltou que a repressão ao crime não pode se transformar em
execução sumária:
“A
sociedade é refém do criminoso, mas também se torna refém de uma
polícia que não age dentro da lei. A lei não dá à polícia o
direito de matar.”
“O
direito de executar não é um direito dado pela lei ao policial. (…)
O que nós estamos percebendo é que esta foi uma operação de
morte, de execução, cuja finalidade foi executar.”
Otoni
de Paula afirmou que, independentemente de estar acompanhado de
colegas de esquerda, progressistas ou não, é necessário reduzir o
tom do debate e reconhecer que vidas foram ceifadas, incluindo quatro
policiais e possíveis inocentes, cujas mortes serão investigadas,
“assim como de marginais executados sem a devida troca de tiros”.
Ele
ressaltou que, “apesar de quem planta desgraça colher desgraça,
execuções no país não podem ser toleradas, mesmo que o governador
tente assumir um papel de “Bukele” no Rio de Janeiro — em
referência ao presidente de El Salvador, Nayib Bukele, conhecido por
suas ações autoritárias no combate ao crime organizado.
“QUEM
ESTÁ FALANDO AQUI É O PASTOR”
O
encontro ocorreu um dia depois de seu discurso na Câmara — que
viralizou e foi publicado
pelo ICL.
Na tribuna, Otoni denunciou o racismo estrutural da operação:
“Preto,
correndo em dia de operação na favela, é bandido. Preto, com
chinela havaiana, sem camisa, pode ser trabalhador. Correu é
bandido.”
Ele
também criticou a comemoração da letalidade policial:
“É
fácil, senhoras e senhores, para quem tá no asfalto e não conhece
a realidade da favela, dizer ‘Que bom! Matou!’. É porque o filho
de vocês não está lá dentro.”
E
ressaltou seu lugar de fala:
“Quem
está falando aqui é pastor. (…) Eu sei que morreram quatro ontem:
meninos que nunca portaram fuzis, mas estão sendo contados no pacote
como se fossem bandidos.”
MUDANÇA
DE POSTURA
A
ativista de direitos humanos e evangélica de esquerda, Andressa
Oliveira,
comentou o pronunciamento do deputado e pastor Ottoni de Paula,
destacando a mudança de postura do parlamentar, que antes defendia o
discurso de que “bandido bom é bandido morto” e agora pede
justiça pela morte de quatro jovens de sua igreja, vítimas de
violência policial.
Para
Andressa, o fato de um líder religioso da direita denunciar a
letalidade policial e reconhecer o viés racial dessas ações é
algo inédito e simbólico.
“É
a primeira vez que eu vejo um líder de igreja, principalmente da
direita, reclamando por justiça, reclamando inocência e denunciando
a morte de jovens pela polícia. Porque isso não é comum”,
afirmou.
Ela
vê nessa mudança um possível despertar de consciência sobre o
genocídio da população negra e espera que o clamor do deputado não
se limite aos membros de sua igreja, mas se estenda a todas as
vítimas da violência e da injustiça do Estado.
Por
Lucas Rocha e Schirlei Alves
Fonte:
iclnoticia.com.br